e hoje eu acordei piromaníaca. Acendi um cigarro mas apaguei porque nem queria fumar, mesmo. Aí acendi de novo, e de novo e de novo. Esquentei chá no fogão mesmo com o micro-ondas (reforma ortográfica quem curte) logo ali. Taquei fogo em comprovantes de compra e em cartões de visita, dentro do cinzeiro. E tou fazendo uma rápida lista dos meus inimigos, pensando em quem tem a casa mais incendiável.

Eu só quero que aconteça alguma coisa.

(O lado bom é que when there’s nothing left to burn you have to set yourself on fire e tudo mais, mas pensando melhor esse é o lado ruim também.)

O que eu queria mesmo era tacar logo fogo em 2009 e ver o que diabos nascerá das cinzas.


Minha relação com meu pai nunca foi “eu era feliz e não sabia”, “eu nunca tinha percebido o quanto ele era importante” e tampouco “eu nunca disse que o amava”. Eu sempre soube,  ele sempre soube, e se eu não disse muitas vezes não foi por não sentir nem nada, mas é que sempre fui meio desajeitada com tudo isso de dizer e expressar, ele também.

Eu ainda choro, ainda… eu não consigo falar dele no passado, “meu pai fazia, meu pai falava”, sempre trava na língua, aí eu engulo em seco. Os domingos são os mais difíceis, que era quando ele ligava pra gente ir almoçar lá. Tem também quando estacionam aqui na porta de casa e eu fico brava, aí lembro que ninguém mais vem me visitar de carro, mesmo. Ou quando algum Vectra buzina e eu assusto.

Teve também o sonho que eu tive esses dias, que ele estava me dando uma bronca foda, com aquele tom de voz meio bravo e decepcionado, o jeito dele falar “pôxa, filha…” que sempre me fez sentir como a pior das criaturas por decepcionar a pessoa que mais me amava no mundo todo. E eu nem sabia porque era a bronca, no sonho, mas acordei tão mal, tão mal.Eu sei que sou cheia de falhas, e que poderia tentar ser uma pessoa melhor com muito mais afinco. Eu posso falar pelo menos quatro coisas, nesse momento, que deixariam ele decepcionado que nem no sonho, apesar de eu estar lutando, e eu estou, eu acho que estou pelo menos.

O que eu fico mais chateada e brava e triste é que não tem nenhum consolo do tipo “ele descansou”. Minha avó materna morreu no comecinho do ano e ainda dói, mas ela tinha 89 anos e câncer no pâncreas há dois, então quer dizer, por mais que mais que qualquer um eu – que fiquei no hospital com ela a maior parte do tempo – saiba que ela queria viver mais do que qualquer coisa, estamos mais condicionados a aceitar. Meu pai tinha 59 e ficou doente e hospital e UTI e morreu e simplesmente não é justo. E quando eu digo isso as pessoas respondem “mas nunca é” e, só avisando, isso não ajuda nem um pouco.

Vai ver eu sou mimada that much, mesmo. E vai ver é por isso que eu continuo chorando, é por isso que eu não consegui superar, mas uma outra parte de mim fica dizendo que “superar” é só uma ilusão. Eu não preciso deixar de amá-lo porque ele morreu, e eu não preciso parar de chorar só porque já sou adulta e preciso seguir em frente. Mesmo porque seguir em frente não é uma questão de escolha, afinal essas coisas banais como comer e vestir dependem de eu ter forças pra levantar da cama e trabalhar. Nem sempre eu tenho forças, nem sempre eu tenho trabalho, nem sempre eu recebo pelo trabalho que fiz, mas eu tou tentando. Trabalhar e sorrir e passear e ver meus amigos e ver meus irmãos e viver. Eu tou tentando porque por mais que eu ainda esteja falhando em outras mil coisas, prefiro sonhar com e imaginar meu pai decepcionado comigo e “pôxa, filha” do que triste e magoado consigo mesmo por não estar aqui quando eu preciso tanto dele.

Talvez a metáfora da rosa, do post passado, esteja muito mais acertada do que eu gostaria de admitir.


Fotos de gente bonita e pelada, mensagens de texto, palavras de apoio, ajuda de qualquer tipo pra conseguir qualquer tipo de trabalho, links bonitinhos ou engraçados, imagens fofas, posts amáveis e comentários adoráveis, músicas felizes ou tristes, bebida, chocolate, proteção, confiança, papo furado, conversas profundas, videogame, telefonemas do nada, convites pra sair e fazer nada na rua. Emprestar dinheiro ou pagar um jantar, sorrir pra mim, perguntar como eu estou, me ouvir falar e falar e falar besteira e me ouvir falar de fandom e me ouvir reclamar da vida, rir comigo e chorar comigo, contar as coisas da própria vida pra me distrair, contar histórias enormes pra me fazer rir, me dar amor e atenção quando quero, me deixar em paz quando preciso.

Eu nunca vou poder agradecer direito, mas este ano meus amigos (muito, muito mais numerosos e queridos do que eu imaginava) literalmente salvaram minha vida.


Hoje, ainda que aos pouquinhos, eu fiz absolutamente tudo que planejei fazer quando acordei. Tem esses dias que eu resolvo ser uma razoável dona-de-casa e são até satisfatórios, e por mais que eu ainda seja muito desleixada, desinteressada e preguiçosa com as coisas da casa, até gosto da sensação de cansaço depois de um trabalho feito.

Aí tomo um banho, sento de novo no PC e fico lendo fanfic até o Cris chegar, mas sabendo que a sala está mais ou menos arrumada, a cozinha mais ou menos totalmente limpa. Daqui a pouco ele chega, eu recebo ele com um abraço e assistiremos Supernatural no SBT enquanto fazemos a janta e (se a FOX resolveu abrir de novo) depois nós vamos ver Glee (e se não vou ficar jogando FFVII enquanto ele joga Disgaea). Conversamos e jantamos, eu coloco ele pra dormir, e volto pro PC mesmo sabendo que tenho que acordar cedo amanhã, sei que volto porque sei que vai me dar vontade de escrever.

(Tive essa conversa com a Júlia e fiquei com vontade de escrever sobre amores não-correspondidos que sejam do tipo “meudeusofromuito” e não do tipo “beleza, sigo minha vida”, justamente porque não entendo o primeiro tipo muito bem e normalmente quando escrevo ou é pra explicar, ou pra entender. Às vezes também escrevo para escrever para escrever para escrever, mas é bem mais raro. Quando posso escrevo pra ganhar dinheiro, também, mas também é uma forma de escrever para explicar, para entender, para escrever.)

E quando eu for dormir, vou levar música comigo, porque ela me impede de ficar pensando e se eu penso às vezes choro e se choro antes de dormir acordo com dor de cabeça. (Engraçado que acordo com um homem berrando nada-mal-prum-boçal-retardado-mental-infeliz mas só tenho dor de cabeça se chorei, vai entender.) Amanhã vai ser um dia legal, quero que seja, então quero acordar bem, então é isso.


Eu ia contar como nos conhecemos, como eu stalkeei de leve por um tempo até conseguir domar o medo infundado de falar com ela. Eu ia contar como ficamos amigas rápido, dar um jeito de descrever a confiança que eu tenho nela, o amor imenso que tenho por ela, e a vontade que eu tenho que ela estivesse sempre “fisicamente” por perto. E dizer como compartilhar, ainda que bobagens, ganha um tom diferente se for com ela.

Mas não vou. Porque mesmo que eu queira, acho que realmente não preciso. Porque ela sabe, ela sempre soube.

*

Feliz aniversário, Giovana. Amo você.


Eu não sou bissexual porque sou indecisa.

Eu não sou bissexual porque sou pervertida.

Eu não sou bissexual porque “isso está na moda”.

Eu não sou bissexual porque sou gay, mas sou covarde demais pra assumir.

Eu não sou bissexual porque sou hétero, mas quero ser moderna.

Eu não sou bissexual porque me sinto perdida, e por sinal também não me sinto perdida por ser bissexual.

Eu não sou bissexual porque acho que isso agrada os homens.

Eu não sou bissexual porque sou carente, ou porque “sinto falta de homem”.

Eu não sou bissexual porque gosto de pornografia gay, ou de pornografia em geral.

Eu não sou bissexual porque sou “jovem” ou porque “estou experimentando” ou porque “ainda não conheço o mundo”.

Eu não “era” bi-curious e agora sou hétero porque estou com um cara.

Eu não sou bissexual porque simplesmente faria sexo com qualquer coisa que cruze meu caminho.

Eu não sou bissexual porque “gosto de pessoas pelo que são e não pelo seu sexo”. Gosto de homens e também gosto de mulheres, não há poesia.

As pessoas vêm em todas as cores. Eu, quem sabe, sou assim um roxinho básico.


Eu listei as coisas boas sobre o Cris num momento em que ele estava me machucando muito com brigas e acusações, e acho que ajudou. E vou listar as coisas boas sobre esse ano que só me machucou, todas as que eu encontrar, sem nenhuma ordem específica:

  • Conheci pessoas legais e fiz alguns bons amigos que espero que fiquem pra sempre. Fiquei mais próxima de alguns, conheci alguns pessoalmente, tive ótimos momentos com alguns que só vejo de vez em quando, e momentos meio mágicos com os amigos de sempre.
  • E, que me lembre, não fiz nenhum inimigo, o que é alguma coisa.
  • Aprendi um pouco mais sobre mim mesma, especialmente questões de sexo e amor e tal. E voltei a me cuidar um pouquinho.
  • Aconteceram várias coisas nerds legais, tipo Bátema no imax, o filme novo de Star Trek e começar a ver Doctor Who. E bobaginhas que sempre quis e consegui comprar.
  • Me dediquei a passar mais tempo com Rikuou, meu gato. Foi estranhamente importante.
  • Li bons livros, boas fics, boas teses, bons blogs.
  • Comprei um Nintendo DS.
  • Aprendi um pouco mais sobre milhões de coisas, sobre computadores e literatura e rotina de escritório e internet e família e dinheiro e acho que são coisas demais pra listar e acho que acontecem todo ano de qualquer forma.
  • Vi o sol nascer, vi o sol se pôr, andei na chuva, na Paulista, em Peruíbe, em Pirituba. Andei sozinha, fui no cinema sozinha, a cafés sozinha, na praia sozinha, e fiz tudo isso bem acompanhada também.
  • Comecei esse blog, e foi muito mais importante do que eu imaginava que ia ser, e fez muito mais bem do que eu imaginava que iria fazer.

O ano tecnicamente ainda não acabou, o que me deixa na esperança que ainda aconteçam coisas boas.

E, se tudo der certo, no final de 2010 não precisará haver lista alguma. Torçam por mim.