Something old

07Nov09

É estranho porque eu não lembro exatamente de cenas do bullying que sofria quando mais nova. Me lembro de uma sensação de vergonha, lembro da dor, lembro dos apelidos. Mas não tem nenhum momento especialmente marcado.

Lembro vividamente de rolar na cama desejando desesperadamente ficar com qualquer doença que me impedisse de sair de casa. Lembro de me vestir pra ir pra escola, esperar minha mãe sair e ficar vendo desenho a manhã toda. Lembro de matar aula para ficar sentada na praça perto da escola, fazendo absolutamente nada. Lembro de tentar conversar apenas com quem também parecesse desajustado, lembro de chorar no carro do meu pai e dele bravo e confuso sugerindo me mudar de escola, de novo.

Mas mesmo tendo bloqueado e esquecido eu sempre vou saber que tudo aconteceu. Eu vou saber pelas marcas que ficaram, eu vou saber cada vez que assustar com um movimento brusco, cada vez que fizer careta porque alguém me chamou de algum apelido além de “Dri”. Eu sei o que aconteceu não pelo pouco que lembro, mas pela pessoa que sou hoje. Pelas cicatrizes que carrego hoje, pelo meu medo de conhecer gente nova, pela desconfiança que qualquer gesto de carinho me traz.

Eu posso ser uma pessoa feliz, sou uma pessoa feliz, vou continuar sendo uma pessoa feliz. Mas tudo é apesar de tudo que aconteceu, apesar das feridas pra sempre ali. E às vezes eu penso se meu medo de ter filhos não é simplesmente medo do que eles vão ter que passar se forem diferentes, se pensarem diferente ou se vestirem diferente.

Eu achava que crescer resolveria as coisas magicamente. Não resolve. Crianças e adolescentes são cimento fresco, as marcas deixadas não saem mais. Vive-se com elas, aprende-se com elas, esquece-se delas, e talvez eu fosse uma pessoa pior sem elas.

Preferia que nunca tivessem sido deixadas ali.

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A May e a Júlia falaram sobre o assunto também. Foi porque não parei de pensar desde que li os posts delas que resolvi escrever esse aqui.


Something blue

06Nov09

Eu sei o que ele sente quando olha para ela e sente o gosto de antigas possibilidades abandonadas. Eu sei o que ele sente quando olha para ele e sabe que o ama, e só pensa nele e nele e nele, exceto quando pensa nela.

Eu sei o que ele sente quando a vê nos braços de outro, e pensa que ele mesmo está nos braços de outro, também. E que ambos amam seus respectivos “outros”, mas que talvez o “e se tivesse sido diferente?” fique pairando eternamente entre os dois, os quatro.

Eu sei o que ele sente quando não conversa com ela sobre isso, não conversa com ele sobre isso, não pensa sobre isso sempre que pode evitar. E sei também que ele não tem nada contra o homem que está com ela, mas sente ele sempre será o homem que a roubou, que roubou uma vida inteira de possibilidades. Sei como ele se sente egoísta por pensar assim, já que tinha feito sua escolha em desistir dela muito antes, já que essas possibilidades nunca foram reais.

Eu sei o que ele sente quando está nos braços dele e nada mais existe, e o ama, o escolheu porque o ama, que quando está imerso no mundo dele está mais feliz do que jamais foi. Mas também sei que, quando ela sorri, ele lembra que a ama também, que todo o mundo dela poderia ser dele, o sabor de tudo que foi deixado para trás.

Eu sei o que ele sente conforme o amor por ele e dele é alimentado e se solidifica, e o amor por ela e dela vai se desfazendo aos poucos, pedra sob a chuva, areia sob o tempo, e dói, e é triste demais.


hugo2_1

Se liga, é sua última vida.


Talvez eu seja uma romântica incorrigível, que só quer uma boa história que tenha ao menos um casal cheio de problemas, mas que passe a se dar bem e fique feliz no final. Alguma coisa que inclua o outono ou a primavera numa cidade grande, ou alguma coisa com neve. Chocolates e flores, e alguém realmente apaixonado dedicado a conquistar.

Talvez eu queira viver num filme da Meg Ryan, ou num do Hugh Grant, ou em algum episódio fofo de How I Met Your Mother. Talvez eu só queira um momento musiquinha tocando Oasis ou Switchfoot ou whatever, no qual eu faria compras pra afogar as mágoas e almoçaria em charmosos bistrôs. E só então eu reencontraria a pessoa amada, que também teria passado pelo momento musiquinha, e talvez eu só queira viver algum tipo de sonho. Talvez um casamento num castelo, ou talvez fugir de um casamento num castelo pra casar com outro num restaurante barato.

Talvez eu seja um tipo meio patético, que gosta quando as pessoas ficam noivas em seriados só porque isso indica que haverá um casamento em alguma temporada posterior. E vai ver na verdade eu leia fanfics porque nem a ficção pura satisfaça o que eu espero de romantismo. Talvez eu nem goste de crianças tanto assim, mas fique feliz quando mulheres engravidem quando em relacionamentos estáveis simplesmente porque é bonito. Talvez bem-casado seja meu bolinho favorito.

Talvez eu esteja ficando velha, ficando boba, mudando de valores. Rosas já não são mais apenas coisas caras demais sendo que poderíamos comprar livros ou doces, Campos do Jordão não é mais só o lugar idiota que os idiotas vão pra passar frio, andar de mãos dadas não é só para quando minha mão está gelada.

Talvez cartas de amor, mesmo que mais ou menos como esta daqui, nem pareçam mais tão bregas assim.

Wedding_Dance_by_choostar


Like Peter Pan, or Superman,
You will come to save me.

Mesmo pra quem sempre gostou de ajudar os outros, tudo bem ser um pouco a donzela em perigo, eu acho. Só um pouco mais.


No hospital

28Out09

- A gente tem que ver Noivas em Guerra.

- Qual é meu filme favorito?

- Hmmm… Identidade?

- Não, Monstros S.A.

- Ahh, é. Bom, era minha segunda opção.

- E o seu? Não sei o seu.

- Nem eu. Clube da Luta, eu acho.

- Ah, eu amo. O único defeito é que o Brad Pitt morre no final.

- Melhor morrer que ficar com a menina lá.

- Hahahaha, é.

- Eu gosto dela. Mas, né.

- É. E seriado?

- Doctor Who. O seu é Friends, né? Ou Lost?

- Friends. Lost também, e Star Trek.

- Gosto mais de How I Met Your Mother que de Friends. Mas Star Trek sempre terá meu coração.

- Você tem que ver Lost.

- Eu sei.

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Aí me expulsaram da sala de medicação, mas ela estava bem mais calma, então tudo bem.


Passei a tarde sozinha, lendo, e passei a noite caçando e arrumando ao meu gosto o novo layout do meu LiveJournal. (E mudei aqui também. Aquele theme era muito tímido e no cantinho dele -q e tava me irritando. ♥) Enfim, parece uma coisa simples, mas o LJ é uma coisa complicada e fresca pra se mexer, então foi um trabalho braçal absurdo.

Terminei quando o sol estava nascendo. Aquela felicidade de finalmente ter me entendido com os malditos códigos e deixado tudo bonito, do dia prometendo ser aquela coisa cinzenta tão tipicamente paulistana, do Cris ter chegado lá da boêmia (-não), do gato ter acordado, tudo meio ao mesmo tempo.

Vai ver o ano novinho em folha que eu estava tanto pedindo já tenha chegado, eu só precisava de um tempo tranqüila pra perceber.