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Eu listei as coisas boas sobre o Cris num momento em que ele estava me machucando muito com brigas e acusações, e acho que ajudou. E vou listar as coisas boas sobre esse ano que só me machucou, todas as que eu encontrar, sem nenhuma ordem específica:

  • Conheci pessoas legais e fiz alguns bons amigos que espero que fiquem pra sempre. Fiquei mais próxima de alguns, conheci alguns pessoalmente, tive ótimos momentos com alguns que só vejo de vez em quando, e momentos meio mágicos com os amigos de sempre.
  • E, que me lembre, não fiz nenhum inimigo, o que é alguma coisa.
  • Aprendi um pouco mais sobre mim mesma, especialmente questões de sexo e amor e tal. E voltei a me cuidar um pouquinho.
  • Aconteceram várias coisas nerds legais, tipo Bátema no imax, o filme novo de Star Trek e começar a ver Doctor Who. E bobaginhas que sempre quis e consegui comprar.
  • Me dediquei a passar mais tempo com Rikuou, meu gato. Foi estranhamente importante.
  • Li bons livros, boas fics, boas teses, bons blogs.
  • Comprei um Nintendo DS.
  • Aprendi um pouco mais sobre milhões de coisas, sobre computadores e literatura e rotina de escritório e internet e família e dinheiro e acho que são coisas demais pra listar e acho que acontecem todo ano de qualquer forma.
  • Vi o sol nascer, vi o sol se pôr, andei na chuva, na Paulista, em Peruíbe, em Pirituba. Andei sozinha, fui no cinema sozinha, a cafés sozinha, na praia sozinha, e fiz tudo isso bem acompanhada também.
  • Comecei esse blog, e foi muito mais importante do que eu imaginava que ia ser, e fez muito mais bem do que eu imaginava que iria fazer.

O ano tecnicamente ainda não acabou, o que me deixa na esperança que ainda aconteçam coisas boas.

E, se tudo der certo, no final de 2010 não precisará haver lista alguma. Torçam por mim.


E o post anterior é um exemplo, e o post que eu ia escrever sobre a sexta-feira meio mágica que tive também era, mas no fim não escrevi. Mas o que eu queria dizer é que cada pequena coisa vira uma grande coisa, e uns seis ou sete anos atrás eu escrevi um texto sobre as migalhas que marcam o caminho serem a única coisa que importa, e ainda hoje é bem isso mesmo.

Porque eu achei dois reais na calçada, porque choveu, porque eu saí de sapatilhas vermelhas, porque a gente veio o caminho todo ouvindo música de mãos dadas, porque comi pizza com meus meninos, porque almocei com meu irmão no restaurante na beira do lago, porque já já o cheiro de chá mate vai invadir a casa. Não há nada além dessas coisas, e eu terminei de ler o livro que a menina emprestou, vou ligar pra ela marcando da gente se ver pra que eu devolva, e a gente vai conversar mais. Talvez eu tome meu chá preferido do Rei do Mate, talvez não. Talvez eu tenha internet mês que vem, talvez não. Talvez eu chore essa noite, talvez não.

Mas eu me esforço, mesmo que doe e sangre eu me esforço pra guardar as pequenas e grandes coisas boas, pra marcar com ferro e fogo, pra assim poder continuar.  Não quero nunca precisar que as grandes-coisas estejam bem, não quero nunca parar de ver o bem que me fazem as pequenas.

As migalhas, meu amor. As migalhas.


Eu gosto quando eu solto uma brincadeira e ele pega no ar, entende, e devolve, e podemos passar horas entre referências ou sarcasmos, sozinhos, sorrindo.

Eu gosto das duas dobrinhas gordinhas nas costas dele, das duas covinhas no cóccix, das duas pintinhas perto da cintura.

Talvez acima de tudo, eu gosto da paciência dele comigo.

Eu gosto quando ele divide as coisas que pensa comigo, mesmo quando eu não estou nem vagamente interessada.

Eu gosto quando ele me faz comida, quando me cobre à noite, quando amarra meus cadarços, e ri.

Eu gosto quando ele me abraça e diz “passou, passou”, meio rindo de mim, quando eu choro por besteira.

Eu gosto de como ele não sente muito ciúme, e quando sente sabe que é bobagem, e nunca briga por isso.

Eu gosto quando a gente canta bem alto, juntos, e quando a gente se emociona junto com alguma coisa boba na TV.

Eu gosto do tatibitate retardado que a gente usa pra conversar, cheio de palavras inventadas.

Eu gosto de termos opiniões tão parecidas, sobre política e sociedade, sobre relacionamentos humanos e sobre quase tudo que é importante.

Eu gosto do jeito paternal que ele tem com o nosso gato, porque é tão bonitinho, igual quando ele está com qualquer criança.

Eu gosto de como ele embarca nas coisas aleatórias que eu invento, e sente falta quando eu estou desanimada pra inventar.

Eu gosto de como ele é namorado e amigo, marido e irmão, e tudo junto e ao mesmo tempo e me fazendo apaixonar de novo e de novo. E talvez incondicionalmente, e talvez para sempre.

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Claro que te farei mal. Claro que me farás mal. Claro que podemos, mas essa é a condição da existência. Receber a Primavera significa correr os riscos do Inverno. Se desistir agora será correr o risco do desaparecimento. Amo-te.

Antoine de Saint-Exupéry


Something old

07Nov09

É estranho porque eu não lembro exatamente de cenas do bullying que sofria quando mais nova. Me lembro de uma sensação de vergonha, lembro da dor, lembro dos apelidos. Mas não tem nenhum momento especialmente marcado.

Lembro vividamente de rolar na cama desejando desesperadamente ficar com qualquer doença que me impedisse de sair de casa. Lembro de me vestir pra ir pra escola, esperar minha mãe sair e ficar vendo desenho a manhã toda. Lembro de matar aula para ficar sentada na praça perto da escola, fazendo absolutamente nada. Lembro de tentar conversar apenas com quem também parecesse desajustado, lembro de chorar no carro do meu pai e dele bravo e confuso sugerindo me mudar de escola, de novo.

Mas mesmo tendo bloqueado e esquecido eu sempre vou saber que tudo aconteceu. Eu vou saber pelas marcas que ficaram, eu vou saber cada vez que assustar com um movimento brusco, cada vez que fizer careta porque alguém me chamou de algum apelido além de “Dri”. Eu sei o que aconteceu não pelo pouco que lembro, mas pela pessoa que sou hoje. Pelas cicatrizes que carrego hoje, pelo meu medo de conhecer gente nova, pela desconfiança que qualquer gesto de carinho me traz.

Eu posso ser uma pessoa feliz, sou uma pessoa feliz, vou continuar sendo uma pessoa feliz. Mas tudo é apesar de tudo que aconteceu, apesar das feridas pra sempre ali. E às vezes eu penso se meu medo de ter filhos não é simplesmente medo do que eles vão ter que passar se forem diferentes, se pensarem diferente ou se vestirem diferente.

Eu achava que crescer resolveria as coisas magicamente. Não resolve. Crianças e adolescentes são cimento fresco, as marcas deixadas não saem mais. Vive-se com elas, aprende-se com elas, esquece-se delas, e talvez eu fosse uma pessoa pior sem elas.

Preferia que nunca tivessem sido deixadas ali.

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A May e a Júlia falaram sobre o assunto também. Foi porque não parei de pensar desde que li os posts delas que resolvi escrever esse aqui.


Something blue

06Nov09

Eu sei o que ele sente quando olha para ela e sente o gosto de antigas possibilidades abandonadas. Eu sei o que ele sente quando olha para ele e sabe que o ama, e só pensa nele e nele e nele, exceto quando pensa nela.

Eu sei o que ele sente quando a vê nos braços de outro, e pensa que ele mesmo está nos braços de outro, também. E que ambos amam seus respectivos “outros”, mas que talvez o “e se tivesse sido diferente?” fique pairando eternamente entre os dois, os quatro.

Eu sei o que ele sente quando não conversa com ela sobre isso, não conversa com ele sobre isso, não pensa sobre isso sempre que pode evitar. E sei também que ele não tem nada contra o homem que está com ela, mas sente ele sempre será o homem que a roubou, que roubou uma vida inteira de possibilidades. Sei como ele se sente egoísta por pensar assim, já que tinha feito sua escolha em desistir dela muito antes, já que essas possibilidades nunca foram reais.

Eu sei o que ele sente quando está nos braços dele e nada mais existe, e o ama, o escolheu porque o ama, que quando está imerso no mundo dele está mais feliz do que jamais foi. Mas também sei que, quando ela sorri, ele lembra que a ama também, que todo o mundo dela poderia ser dele, o sabor de tudo que foi deixado para trás.

Eu sei o que ele sente conforme o amor por ele e dele é alimentado e se solidifica, e o amor por ela e dela vai se desfazendo aos poucos, pedra sob a chuva, areia sob o tempo, e dói, e é triste demais.


hugo2_1

Se liga, é sua última vida.


Talvez eu seja uma romântica incorrigível, que só quer uma boa história que tenha ao menos um casal cheio de problemas, mas que passe a se dar bem e fique feliz no final. Alguma coisa que inclua o outono ou a primavera numa cidade grande, ou alguma coisa com neve. Chocolates e flores, e alguém realmente apaixonado dedicado a conquistar.

Talvez eu queira viver num filme da Meg Ryan, ou num do Hugh Grant, ou em algum episódio fofo de How I Met Your Mother. Talvez eu só queira um momento musiquinha tocando Oasis ou Switchfoot ou whatever, no qual eu faria compras pra afogar as mágoas e almoçaria em charmosos bistrôs. E só então eu reencontraria a pessoa amada, que também teria passado pelo momento musiquinha, e talvez eu só queira viver algum tipo de sonho. Talvez um casamento num castelo, ou talvez fugir de um casamento num castelo pra casar com outro num restaurante barato.

Talvez eu seja um tipo meio patético, que gosta quando as pessoas ficam noivas em seriados só porque isso indica que haverá um casamento em alguma temporada posterior. E vai ver na verdade eu leia fanfics porque nem a ficção pura satisfaça o que eu espero de romantismo. Talvez eu nem goste de crianças tanto assim, mas fique feliz quando mulheres engravidem quando em relacionamentos estáveis simplesmente porque é bonito. Talvez bem-casado seja meu bolinho favorito.

Talvez eu esteja ficando velha, ficando boba, mudando de valores. Rosas já não são mais apenas coisas caras demais sendo que poderíamos comprar livros ou doces, Campos do Jordão não é mais só o lugar idiota que os idiotas vão pra passar frio, andar de mãos dadas não é só para quando minha mão está gelada.

Talvez cartas de amor, mesmo que mais ou menos como esta daqui, nem pareçam mais tão bregas assim.

Wedding_Dance_by_choostar